Líderes do Brics realizam virtualmente a 12ª Cúpula nesta terça-feira

Publicado em 14 de janeiro de 2025

Nesta terça-feira, os líderes dos países que compõem o Brics — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — se reúnem virtualmente para a 12ª Cúpula do bloco. O encontro, que ocorre em um contexto de crescentes tensões geopolíticas e desafios econômicos globais, promete ser um marco na definição do futuro do grupo, com a expansão do clube e o fortalecimento de alternativas ao sistema financeiro dominado pelo dólar ocupando o centro das discussões.

O Contexto da 12ª Cúpula

Realizada sob a presidência rotativa do Brasil, esta edição da cúpula é a primeira a ocorrer após o processo de expansão que quadruplicou o número de membros do bloco, embora a reunião desta terça-feira ainda conte apenas com os cinco membros fundadores. A escolha pelo formato virtual reflete a complexidade da agenda dos líderes e a necessidade de manter o diálogo em um ritmo constante sobre temas urgentes que impactam diretamente o Sul Global e as economias emergentes.

Com a participação confirmada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do presidente russo Vladimir Putin, do primeiro-ministro indiano Narendra Modi, do presidente chinês Xi Jinping e do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, a reunião busca consolidar o bloco como um contrapeso geopolítico relevante no cenário internacional, especialmente em um momento de fragmentação das cadeias globais de suprimento e de reordenamento das alianças estratégicas.

A Expansão do Brics e a Nova Geopolítica Global

Um dos principais pontos de pauta é a consolidação do processo de expansão do bloco. Após o convite a países como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Egito e Argentina (que recusou o convite após a mudança de governo), o Brics busca definir critérios mais claros para a entrada de novos membros plenos e o estabelecimento de uma categoria de "países parceiros". Este movimento é visto como uma tentativa de reequilibrar a ordem mundial e dar mais voz às nações em desenvolvimento nas decisões internacionais, especialmente em foros como a ONU e o FMI.

O Brasil, que sempre defendeu a ampliação do bloco, vê na expansão uma forma de fortalecer o comércio Sul-Sul e de criar novas rotas de cooperação que não dependam exclusivamente dos países desenvolvidos. A inclusão de novos membros com economias dinâmicas e grande população, como a Etiópia e o Egito, abre novas perspectivas para investimentos e parcerias em infraestrutura, tecnologia e segurança alimentar, temas caros à agenda brasileira.

Desdolarização e o Novo Banco de Desenvolvimento

A redução da dependência do dólar americano no comércio entre os países do Brics é uma pauta constante e ganhou ainda mais relevância nos últimos anos. A cúpula deve avançar nas discussões sobre o uso de moedas locais nas transações comerciais e na criação de mecanismos de pagamento alternativos ao sistema SWIFT. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff, será um instrumento central nessa estratégia. A expectativa é de que novos projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável sejam anunciados, financiados em moedas locais, diminuindo a exposição dos países-membros às flutuações do câmbio.

O NDB já se consolidou como uma alternativa viável ao Banco Mundial e ao FMI, com um portfólio crescente de projetos em energias renováveis, mobilidade urbana e conectividade digital. Para o Brasil, que possui uma das maiores taxas de juros reais do mundo, o acesso a linhas de crédito em moedas alternativas pode representar uma oportunidade significativa para alavancar o investimento público e privado em setores estratégicos, sem a dependência exclusiva do mercado de capitais internacional.

Reforma das Instituições Multilaterais

Os líderes do Brics devem reiterar o coro por uma reforma urgente do Conselho de Segurança da ONU, do FMI e do Banco Mundial. A visão do bloco é que essas instituições, criadas após a Segunda Guerra Mundial, já não refletem a realidade geopolítica do século XXI. O Brasil, que busca uma cadeira permanente no Conselho de Segurança, vê no Brics uma plataforma fundamental para alavancar essa demanda, contando com o apoio explícito de Rússia, China e África do Sul.

A reforma da governança global é um tema que unifica os membros do Brics. Eles argumentam que a distribuição de cotas e poder de voto no FMI e no Banco Mundial é anacrônica e prejudica a capacidade de resposta a crises que afetam desproporcionalmente os países emergentes. A pandemia de Covid-19 e a crise inflacionária global escancararam a necessidade de um sistema financeiro internacional mais justo, estável e representativo.

A Posição do Brasil

Como presidente pro tempore do bloco, o Brasil tem a responsabilidade de conduzir os debates e propor uma agenda propositiva. O governo brasileiro tem demonstrado entusiasmo com o papel do Brics na promoção do desenvolvimento e na integração sul-americana e africana. A pauta ambiental e a transição energética também devem marcar presença, alinhando a imagem do bloco às demandas globais por sustentabilidade, sem abrir mão do direito ao desenvolvimento dos seus membros.

Lula deve utilizar a cúpula para reforçar a necessidade de uma nova governança global que combata a fome e a desigualdade, temas que voltaram ao centro da política externa brasileira. A defesa de um comércio internacional mais equilibrado e o combate às mudanças climáticas com responsabilidade compartilhada, mas diferenciada, são bandeiras históricas do Brasil que encontram eco nos demais parceiros do Brics.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. O que significa a sigla Brics?

Originalmente um acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o termo foi cunhado pelo economista Jim O'Neill em 2001 para se referir ao potencial econômico desses países. Atualmente, o Brics é um mecanismo de cooperação internacional que busca reformar a ordem global e promover o desenvolvimento do Sul Global.

2. Por que a cúpula é virtual?

A decisão pelo formato virtual foi tomada pela presidência brasileira para facilitar a agenda dos chefes de estado e permitir um foco maior nos temas técnicos e políticos da reunião, sem as complexidades logísticas de um encontro presencial. A experiência acumulada durante a pandemia de Covid-19 mostrou que as reuniões virtuais podem ser eficientes para encontros de alto nível.

3. Quantos países fazem parte do Brics atualmente?

Atualmente, o Brics é composto por 5 membros fundadores (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul). A expansão aprovada em 2023 adicionou Arábia Saudita, Irã, Etiópia, Egito e Emirados Árabes Unidos, mas a implementação plena e a definição do status de "parceiro" ainda estão em andamento e devem ser um dos focos desta cúpula.

4. O que é o Novo Banco de Desenvolvimento?

É o banco do Brics, com sede em Xangai, criado para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países-membros e em outras economias emergentes. É visto como uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, com uma governança mais equilibrada e focada nas necessidades do Sul Global.

5. O Brasil se beneficia do Brics?

Sim. O Brasil se beneficia tanto politicamente, ganhando projeção internacional e apoio para suas candidaturas em organismos multilaterais, quanto economicamente, através do aumento do comércio com os demais membros, investimentos e acesso a linhas de financiamento do NDB. O bloco também serve como uma plataforma para o Brasil defender suas pautas comerciais e ambientais em um ambiente de maior cooperação.

A 12ª Cúpula do Brics, portanto, não é apenas uma reunião de rotina, mas um passo importante na reconfiguração do cenário geopolítico e econômico mundial, com implicações diretas para o futuro do multilateralismo e para o papel do Brasil no mundo.